João Calvino (1509 - 1564)
Já vimos que o pecado tem domínio não somente sobre a raça humana em
geral, mas sim sobre toda alma individual; agora vamos considerar se perdemos a
liberdade completa, e se qualquer partícula dela ainda sobrou, que utilidade
ela tem para nós. Para guardar-nos de todos os erros, prestamos atenção aos
perigos que assaltam essa questão de ambos os lados. Se um homem é informado
que perdeu todo o senso daquilo que é justo, imediatamente faz disso uma
desculpa para preguiça, e, porque não possui forças próprias para pratica a
justiça, trata o assunto inteiro com indiferença. Por outro lado, o homem não
pode arrogar a si mesmo um só átomo de justiça sem furta a Deus de Sua honra e
expor-se ao perigo de cair por vã confiança. Se não quisermos naufragar em
qualquer uma destas rochas, devemos sustentar o seguinte rumo: devemos aprender
que perdemos toda a bondade, e ao mesmo tempo a aspirar à bondade da qual
estamos destituídos e à liberdade que perdemos.
É opinião universal dos filósofos que os poderes da razão são
suficientes para o governo da mente humana; e que a vontade que está sujeita à
razão realmente é atiçada pelos sentidos à praticas do mal, mas tem tanta
liberdade de escolha que nada pode impedi-la de seguir os ditames da razão em
todas as coisas. Entre os escritores eclesiásticos, embora todos reconheçam que
a razão humana tem sido gravemente danificada pelo pecado, e que a vontade é
poderosamente assediada por concupiscências malignas, no entanto, muitos se
inclinam demasiadamente ao ponto de vista dos filósofos. Asseveram que a
vontade do homem está livre, não porque ele pode exercer a livre escolha entre
o bem e o mal, mas porque comete o mal pela sua vontade, e não por
constrangimento. Muito bem, mas por que dignificar uma coisa tão pequena com um
titulo tão orgulhoso? Uma liberdade esplêndida, de fato, se o homem não está
constrangido a ser escravo do pecado, mas sua vontade e presa por seus
grilhões! Odeio contendas acerca de palavras que cansam a igreja sem propósito
algum; mas penso que devemos precaver-nos rigorosamente contra o emprego de
palavras operam um erro pernicioso.
Quando somos informados que o homem possui o livre-arbítrio, quem não
entende imediatamente que isto quer dizer que o homem é mestre da sua própria
mente e vontade, e que tem poder em si mesmo para dirigir seu curso ou para o
bem ou para o mal? Na verdade, a mente humana está tão disposta a receber a
falsidade, que mais facilmente ingere o erro de uma só palavra do que a verdade
de um longo discurso. De modo geral, se alguém resolver fazer uso do termo “a
liberdade da vontade” sem subentender erro com isso, não discutirei com ele;
mas devido pensar que não pode ser retido sem grande perigo, e que seria de
grande vantagem para igreja evitá-lo totalmente, eu mesmo prefiro não usá-lo, e
recomendo a outros, se pedirem meu conselho, a seguir meu exemplo. Nesta
altura, digo outra vez que aquele que está mais humilhado e alarmado pela
consciência da sua própria miséria, e vergonha, fez mais progresso no conhecimento
de si mesmo. Não há perigo de superestimar nossa própria pobreza, se somente
aprendemos que devemos procurar em Deus o suprimento das nossas necessidades;
mas não podemos arrogar a nós mesmos a mínima coisa que não nos pertence, sem
nos arruinar por vã confiança e sem roubar Deus da sua honra. Sempre que
sentimos um desejo de reivindicar qualquer bondade como nossa própria, tenhamos
certezas que o pensamento foi sugerido por aquele que disse aos nossos
primeiros pais: “Sereis como Deus, sabendo o bem e o mal”; e rejeitemos tal
conselho diabólico, a não ser que realmente estejamos dispostos a aceitar
conselho de um inimigo. Certamente é agradável ter bondade suficiente para nos
justificar em confiar em nós mesmo; mas podemos ser impedidos de semelhante vã
confiança por muitas passagens importantes na Palavra de Deus, “Maldito o homem
que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço”, “Não faz caso da força
do cavalo, nem se compraz nos músculos do guerreiro. Agrada-se o senhor dos que
o temem, e dos que esperam em sua misericórdia”, “Faz forte ao cansado, e
multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor” (Jer 17.5; Sal 147.10; Is
40.29).
Lembramo-nos, também, de promessas tais como as seguintes: ”Derramarei
água sobre o sedento, e torrentes sobre a terra seca” (Is 44.3); “Ó vós todos
os que tendes sede, vinde as águas” (Is 55.1); expressões estas que testificam
que ninguém tem licença de desfrutar da misericórdia de Deus senão aqueles que
são humilhados pela consciência da sua própria pobreza . Sempre fiquei muito satisfeito
com aquele ditado de Crisóstomo: “O alicerce da nossa filosofia é a humildade”;
e ainda mais satisfeito com o de Agostinho: “Quando certo orador foi perguntado
qual era o requisito mais importante para um orador eloquente, respondeu: uma
boa entrega. Assim, se me perguntas qual é o requisito mais importante para um
cristão verdadeiro, respondo: primeiramente, a humildade; em segundo lugar, a
humildade, em terceiro lugar, a humildade.”
Concordo com o ditado bem conhecido, procedente de Agostinho, que diz: “na
queda, os dons naturais do homem foram corrompidos, enquanto os seus dons
sobrenaturais foram inteiramente perdidos.” Entre estes últimos estão o amor a
Deus, o amor ao próximo, e o desejo por santidade e justiça. Cristo os restaura
para nós, e, portando, correta-mente os consideramos sobrenaturais; daí concluirmos
que foram perdidos na queda. Perdemos, também, a mente sadia e o coração reto;
e assim foram corrompidos nossos dons naturais. O poder de raciocínio mediante
o qual discerne entre o bem e o mal, e pelo qual exerce o entendimento e o bom
juízo, é dom natural, e, portando, não poderia ser totalmente destruído; mas
foi em parte enfraquecido e em parte viciado, de modo que dele nada resta senão
uma ruína desagradável à vista.
Nenhum comentário:
Postar um comentário